Assembleia entrega título de cidadania a Dom Xavier Gilles

A Assembleia Legislativa homenageou, nesta quinta-feira (10), com a entrega do título de cidadão maranhense, o bispo da Diocese de Viana, Dom Xavier Gilles. “É uma honraria merecida a um homem que escreveu a maior parte de sua história em terras maranhenses. Este Parlamento reconhece o seu trabalho abnegado pelas quase cinco décadas de serviços prestados ao Estado”, declarou o deputado Francisco Gomes (DEM), autor do projeto que concedeu o título.

Além de autoridades políticas, a solenidade contou com a participação de representantes de movimentos eclesiais e populares.

“Dom Xavier é um exemplo de dedicação não apenas na ação religiosa, mas também contra as injustiças sociais. Nós ganhamos um cidadão da maior qualidade, com grande comprometimento com o nosso Estado e o nosso povo”, disse o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Tavares (PSB).

Chico Gomes falou em nome do parlamento e lembrou toda trajetória de vida de Dom Xavier, sempre ligada à evangelização e à luta pelas igualdades sociais. “Em 1963 fui apresentado a Dom Xavier na Praça João Lisboa, em companhia do Padre Miguel Candas, sacerdote francês que chegava também ao Maranhão. Xavier nos transmitia idéias progressistas, transformadoras e inovadoras. Diferentes da maioria do clero do nosso Estado, mais conservador”.

A Diocese de Balsas também rendeu homenagem a Dom Xavier através de uma carta, lida da tribuna pelo bispo Dom Enemésio Ângelo Lazzaris, que destacou “o intenso trabalho na linha da evangelização libertadora e transformadora, em favor de uma igreja viva, missionária, servidora e profética. E de uma sociedade nova, solidária e fraternal”.

GRATIDÃO

Com o título de cidadão nas mãos, Dom Xavier disse que sentia-se verdadeiramente agradecido. “Um gesto que quase sanciona oficialmente a minha história de estrangeiro acolhido e adotado por este povo amado”.

Xavier lembrou do período em que chegou ao Maranhão, instalando-se primeiramente na capital São Luís, edificando sua história pelos municípios de Brejo, Urbano Santos e São Benedito do Rio Preto, antes de chegar a Viana.

“Honrosa e preciosa é também a oportunidade que me é concedida de ter o uso da palavra nesta Casa [na tribuna]. Poderei assim, ao mesmo tempo em que obedeço os ritos desta Casa, me permitir algumas extravagâncias evangélicas que fazem parte do meu temperamento e da minha história”, declarou.

Segundo Dom Xavier, cidadania é sinônimo de compromisso. “Entendida em meros termos jurídicos, seria compromisso com a Nação e com o Estado. É pouco! Se for entendida como aliança com quem mais sofre com a desigualdade, é compromisso com os pobres, pela conquista da dignidade, direitos e capacidade política, superando as lógicas da opressão, dos apadrinhamentos e dos clientelismos”. No contexto, Dom Xavier citou nomes que simbolizam a luta pela justiça social: Maria Aragão, Ieda Batista, dona Dica, Conceição Rosa, Rui Frazão, dentre outros.

Para Dom Xavier, a visão social ainda não completa o verdadeiro sentido da palavra. “Hoje em dia cidadania é muito mais que um compromisso social, é um compromisso árduo e desafiador com a vida. É a vida dos homens e mulheres, da terra, das águas e do ar e de toda biodiversidade da floresta e do cerrado, dos nossos rios e mananciais. E de seus povos”, concluiu.

Dom Xavier lembrou ainda a perseguição política da Ditadura Militar. “Como muitos irmão e irmãs, que de várias nações vieram ao Maranhão, mereci, na estação sombria da Ditadura Militar, a qualificação de ‘estrangeiro e comunista’. Definição esta que continua sendo o maior título honorífico que marca a minha tão precária tentativa de seguir o subversivo de Nazaré, Jesus, que ama e privilegia os empobrecidos e os mobiliza para que ‘tenham vida, e vida em plenitude’.

BIOGRAFIA

Nascido em Samur, na França, a 16 de março de 1935, Xavier Gilles de Maupeou d’Ableige, depois de concluir os estudos secundários, ingressou na Escola de Oficiais da Reserva da Cavalaria, de onde saiu como aspirante. Durante sua carreira no exército, ele foi mandado para fronteira da Argélia com a Tunísia e posteriormente transferido para frente de batalha da guerra da Argélia, de onde saiu gravemente ferido.

No dia 30 de junho de 1962, Dom Xavier ordenou-se padre na sua cidade de origem. Aos 27 anos, ele aceitou o convite para trabalhar como missionário no Brasil. Em São Luís foi vigário das paróquias do Monte Castelo e do Bairro de Fátima entre os anos de 1964 e 1967. Também exerceu a função de assistente eclesiástico da Juventude Operária Católica (JOC) do Maranhão.

Atendendo ao apelo de dom Paulo Ponte, então arcebispo de São Luís, transferiu-se para o interior, onde atuou como pároco de São Benedito do Rio Preto e de Urbano Santos no período de 1968 a 1979. Em 1971, em plena vigência do regime militar, foi preso sob acusação de prática comunista.

Graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí e em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Mas foi na organização dos trabalhos das Comunidades Eclesiais de Base e no comando da Comissão Pastoral da Terra que dom Xavier ganharia maior visibilidade, com forte atuação em defesa dos menos favorecidos. Em 1995 foi nomeado bispo auxiliar da Diocese de São Luís, função na qual permaneceu até 1998, quando recebeu a designação para assumir a Diocese de Viana.

Como bispo de Viana sempre demonstrou preocupação com as injustiças sociais e tem procurado fazer gestões para melhorar as condições de vida das populações.

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