Análise: Maia e Alcolumbre dividem ônus em aparente desalinho na reforma partidária

RIO — A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta-feira, a minirreforma partidária e eleitoral que afrouxa regras de fiscalização de contas partidárias e impõe um teto às multas para partidos que descumprirem a prestação de contas. O texto segue agora à sanção do presidente Jair Bolsonaro . O projeto aprovado traz regalias para partidos e brechas para caixa 2 e elevação do fundo eleitoral . A Câmara retomou vários pontos polêmicos que o Senado , após pressões e críticas da opinião pública, havia retirado do projeto.

O desacordo entre Câmara e Senado sobre a reforma partidária em curso no Congresso foi um raro episódio em que Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre , tão afinados desde janeiro, ostentaram posições, pelo menos em público, divergentes. Maia apressou-se em negar qualquer impressão de desalinho, dizendo que ele e o presidente do Senado são como “irmãos siameses”.

Terá mesmo mais chances de errar quem apostar num descompasso entre os dois. Principalmente quando da aparente divergência resulta uma divisão equilibrada dos desgastes decorrentes da defesa de propostas impopulares. Maia assumiu o eventual ônus de aprovar uma reforma partidária com a pecha de retrocesso na transparência, e se permitiu declarar-se contra um aumento do fundo eleitoral, ideia cara aos parlamentares em geral.
Do seu lado, Davi atendeu aos críticos da reforma mal afamada na opinião pública, e com a outra mão encarregou-se de advogar mais dinheiro público para bancar as eleições.

O papel de liderança sindical dos parlamentares é por vezes inerente ao comando de casas legislativas. Pode ter o custo de obrigar quem exerce este comando a adotar posições públicas incômodas em alguns momentos, mas Davi e Maia sabem que é o que lhes garante popularidade interna — e consequentemente poder.

Os dois deixam de atuar como siameses na relação com o governo. Maia mantém maior distância e críticas públicas mais afiadas a Jair Bolsonaro, com quem o presidente do Senado tem demonstrado mais entrosamento.

Se o presidente da Câmara levou boa parte dos louros pela aprovação da reforma da Previdência, é de Davi, no momento, que o presidente da República é mais dependente. Superada a Previdência na Câmara, está nas mãos do Senado a pauta econômica mais importante do governo. Além disso, para o ocupante do Planalto importa mesmo a aprovação da nomeação do deputado Eduardo Bolsonaro para ser embaixador nos Estados Unidos.

Se Davi atendeu ao grupo de senadores que era contra a reforma partidária, barrou a iniciativa da CPI da “Lava Toga”, que desagrada aos Bolsonaros. Tem também trabalhado por votos a favor da nomeação do filho do presidente, o que lhe permitiu viabilizar aspirações de senadores no governo, como as indicações de integrantes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

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