Vítima de falsa técnica reclamou de bumbum deformado e recebeu dicas de como se sentar

Em conversas pelo WhatsApp com Mariana Batista de Miranda, que se dizia técnica de enfermagem, Fátima Santos de Oliveira reclamou que seu bumbum ficou deformado após a realização de uma intervenção estética. Fátima morreu semanas depois, de choque séptico, e Mariana foi presa nesta segunda-feira (30), em Queimados, na Baixada Fluminense.

Nas mensagens obtidas pela TV Globo, a falsa técnica se descrevia como uma pessoa correta e honesta para as pacientes. Ela aplicava o produto na casa das pacientes.

No WhatsApp, Fátima é “Carol”. Elas combinaram de trocar o nome para disfarçar. Fátima procura Mariana para aplicar 1,5 litro de metacril e avisa que também tem uma amiga interessada na intervenção. Essa foi a forma que a paciente encontrou para tentar ganhar uma sessão a mais.

Durante o diálogo, Fátima pergunta se é possível que o PMMA seja sugado pelo tecido da pele, e Mariana diz que é muito difícil de acontecer. “Mas que acontece”.

Ela termina falando para a paciente que ela pode ficar tranquila porque o bumbum vai ficar do jeito que ela quer. Fátima responde: “Confio em ti, mulher”.

Após o procedimento, em mensagens de áudio, Fátima reclama que um lado do bumbum ficou diferente do outro.

“Mariana, eu não sei se eu estou vendo errado. Eu posso estar vendo errado, lógico, mas parece que tem um lado que ficou mais cheio que o outro”, diz Fátima no áudio.

A técnica confirma que aplicou mais PMMA em um dos lados: “Carol, um lado da nossa bunda é sempre maior do que o outro lado, entendeu? Isso aí é normal. O teu lado direito estava realmente menor. Foi o lado que eu enchi mais”, afirmou.

Depois, a técnica em enfermagem dá orientações para a paciente sobre como sentar, após o procedimento.

“Não senta com a bunda toda assim não, senta só na pontinha. E se você sair de moto, empina bem a bunda, entendeu?”, diz a técnica.

Horas depois do procedimento, Fátima avisa que não está bem. Mariana pede que ela faça compressa de gelo e diz que a dor vai passar. Depois, ela ainda receita um antialérgico para ser usado de quatro em quatro horas.

A última mensagem entre as duas foi no dia 24 de março, quando Fátima diz que está muito mal e Mariana pergunta: “Está com o quê, Carol?’.

O Conselho de Enfermagem do Rio informou que Mariana não é técnica de enfermagem e não tem inscrição na entidade.

Procedimento e morte

Uma testemunha contou que Fátima chegou a ser levada para o Hospital da Posse, mas disse que ela recebeu uma medicação e foi liberada pra casa, por falta de leito. Ela morreu dia 8 de abril.

O laudo de necropsia confirmou que o procedimento, em que foi aplicado silicone industrial, foi a razão da morte.

A técnica em enfermagem confessou que aplicava metacril nas pacientes. Ela também contou à polícia que passou a fazer esse tipo procedimento depois que aprendeu com uma travesti, mas que, por conta da repercussão dos últimos casos, já não estava mais trabalhando com isso.

Mariana foi inidicada por homicídio doloso e exercício ilegal da medicina. “Ela vai responder por homicídio doloso, uma vez que, por não ter conhecimento técnico, assumiu o risco de produzir a morte, e também por exercício ilegal da medicina”, explicou a promotora Marina Segadas.

Carteira de curso encontrada com Mariana (Foto: Divulgação/Polícia Civil)

Carteira de curso encontrada com Mariana (Foto: Divulgação/Polícia Civil)

Procedimentos nos últimos três anos, diz polícia

De acordo com o Ministério Público, Mariana assumiu o risco de matar ao realizar a aplicação da substância, mesmo sem possuir formação biomédica e, portanto, conhecimento técnico para a função. Segundo as investigações, ela também prescreveu medicações à vítima após tomar ciência das complicações provocadas pela cirurgia.

“Ela fez esse tipo de aplicação nos últimos três anos. Alega que realizou o procedimento seis vezes, mas desconfiamos desses números e vamos investigar se há mais vítimas”, disse o delegado Vinícius Domingos.

Ainda segundo a denúncia, ao menos entre o fim de 2017 e março de 2018, Mariana exerceu a profissão de médica ilegalmente, sem registro profissional ou formação, aplicando silicone industrial em diversas pessoas, com o objetivo de obter lucro financeiro.

Com Mariana Batista de Miranda, os agentes encontraram uma carteirinha, válida até o fim de novembro, de um curso em Técnico de Enfermagem.

Segundo a investigação, ela cobrava entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por cada procedimento – as aplicações eram feitas nas casas das vítimas.

Fátima pode ter se submetido a 100 aplicações da substância polimetilmetacrilato, o PMMA. Segundo a polícia, cada seringa usada comporta 10 ml de PMMA, e a vítima procurou Mariana para aplicar 1,5 litro do produto.

Silicone industrial usado em outro caso

Informações sobre uso do produto podem ser repassadas de forma anônima pelo Whatsapp ou Telegram do Portal dos Procurados, no telefone (21) 98849-6099; pela Central de Atendimento, no (21) 2253-1177; através do Facebook; e pelo aplicativo Disque Denúncia RJ. FONTE G1

você pode gostar também Mais do autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.