Sarney articula com Jucá, Collor e Renan para sepultar a CPI da CBF

“Posso afirmar que essa CPI é de verdade, muitos daqueles que fazem mal ao futebol vão pagar pelos seus crimes. Tenho esperança que vai sobrar para o presidente da CBF (Del Nero). É o corrupto mor. O Ricardo Teixeira também. Merecem uma vaga ao lado de Marin em uma cela.”
“A gente já tem provas suficientes para pedir o afastamento do Del Nero até antes dele se tornar presidente. Só que a CBF é uma empresa privada e tem uma bancada muito forte tanto na Câmara quanto no Senado.”
Esses eram os sentimentos conflitantes de Romário em maio. O senador estava entusiasmado com a prisão de José Maria Marin na Suíça. Percebeu que o momento havia chegado. Propôs e conseguiu a CPI a CBF. Políticos prometem investigar a entidade que controla o futebol no país.
O senador pelo PSB, que é candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, estava empolgado. Sabia que deveria ser o presidente da CPI, tal foi seu empenho para que ela nascesse. Só que seus assessores se preocupavam com os outros membros. Principalmente o relator. Será ele quem definirá o que realmente acontecerá depois dos depoimentos.
O escolhido nasceu de um acordo explícito entre PT e PMDB. Ele é Romero Jucá. Senador pelo PMDB de Roraima. E muito ligado ao ex-presidente José Sarney. Um dos filhos de Sarney, Fernando, é vice da CBF. Há a certeza que foi escolhido para blindar a CBF. Evitar que a CPI chegue a fundo nas investigações. Ele tem poder para travar o ex-atacante. Romero é aliado de Renan Calheiros (PMDB Alagoas). E o presidente do Senado tem ótima ligação com a Bancada da Bola.
Antes mesmo da CPI começar, Jucá deixa claro que Romário. Ele precisa rever suas expectativas otimistas, revolucionárias, explosivas. O ex-jogador avisou que vai pedir o fim do sigilo bancário e telefônico de Marco Polo de Nero, de Ricardo Teixeira, dos dirigentes mais graduados do futebol brasileiro, das federações. Dificilmente terá sucesso na investida.
Romero, pernambucano que é senador por Roraima, já deixou claro. Ele vai desviar o foco da corrupção. Pretende insistir nos ‘detalhes técnicos’ do futebol, do esporte. Amarrar as investigações e depoimentos ao fracasso da Seleção Brasileira nos gramados. A fragilização dos clubes.
“É preciso retomar o futebol como paixão do povo brasileiro. Chega de 7 a 1, de Copa América (se referindo à desclassificação da seleção). A retaguarda está desorganizada”, disse Jucá.
Foi até mais explícito a jornalistas de Brasília. Perguntado se iria permitir que Marco Polo e Ricardo Teixeira tivessem seus sigilos devassados, o experiente senador foi firme. “Investigaremos quem for preciso. Mas aviso que a CPI não será contra ninguém. Não se pode personalizar. Não será contra A ou B. O tema é o futebol brasileiro.”
Está claro que Romário não terá o espaço que esperava. Até porque há outros interesses na CPI, além de investigar profundamente a CBF e a maneira como administra o futebol nesse país. Como a importante eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, marcada para o ano que vem.
O ex-jogador confirmou ontem o que todos já sabiam. Será candidato. Pesquisa divulgada há dois dias pelo jornal carioca O Dia, o coloca como segundo colocado na disputa. O primeiro é o senador Marcelo Crivella do PRB, com 32,2%. Romário, PSB, tem 27,6%. Marcelo Freixo do PSOL, 13,2%. Clarissa Garotinho do PR, 6,5%. Pedro Paulo, PMDB, 3,0%. Bernardinho, técnico da Seleção Masculina de Vôlei, sem partido, teria 2,3% dos votos. Alessandro Molon, PT, 2,0%. Índio da Costa, PSD, 1,2%. Não sabem em quem votar 5,2%. Nenhum deles 6,7%.
Ou seja, não é de interesse de ninguém que não seja do PSB, que Romário tenha grande projeção nesta CPI. E Romero Jucá pode travá-lo. Não só como representante da bancada da Bola. Como filiado do PMDB.
Entre os outros senadores que fazem parte da CPI e que não agrada os assessores de Romário. O ex-presidente Fernando Collor de Mello. Seu filho Arnon é muito ligado ao futebol. Fundou a Liga do Nordeste, que controla, com o apoio da CBF, a Copa do Nordeste.
Os membros da CPI são apontados, na sua maioria, como políticos conservadores. Romário não terá grandes aliados na revolução no futebol brasileiro que esperava comandar.

Humberto Costa (PT-PE); Zezé Perrela (PDT-MG); Ciro Nogueira (PP-PI), Donizete Nogueira (PT-TO), Gladson Caneli (PP-AC), Eunicio Oliveira (PMDB-CE), Romero Jucá (PMDB-RR), Omar Aziz (PSD-AM), Hélio José (PSD-DF), Álvaro Dias (PSDB-PR), Davi Alcolumbre (DEM-AM); Romário (PSB-RJ), Roberto Rocha (PSB-MA), Fernando Collor (PTB-AL) e Wellington Fagundes (PR-MT). Esses são os membros da CPI. Eles terão 180 dias de prazo para discutir os problemas do futebol brasileiro.

Em seis meses, o cenário poderá estar muito mais calmo, o que teoricamente seria ótimo para a cúpula da CBF. A definição da CPI já demorou absurdos dois meses. Manobra clara dos políticos para deixar ‘baixar a poeira’, acalmar os ânimos da prisão de Marin.

Romário já ficou profundamente decepcionado com a MP que foi aprovada para refinanciamento de R$ 4 bilhões dos clubes em 20 anos. O senador percebeu que Marco Polo del Nero e a CBF foram as grandes vencedoras. Foi tirado do projeto a sua principal reivindicação.

Foi retirada da Medida Provisória a transformação da seleção brasileira de futebol em patrimônio cultural, o que permitiria o Ministério Público acompanhar a gestão e investigar a CBF, entidade responsável pela Seleção.

Além disso, o colégio eleitoral da CBF não se democratizou como esperava o senador. Nada de representantes de jogadores votando. O processo continua fechado. Além das federações e dos clubes da Série A, os da Série B terão direito a eleger o presidente da entidade. Ou seja, continua fácil para o grupo que estiver comandando a CBF se manter no poder o quanto quiser.

Acabou a ilusão de Romário. Sarney, Collor, Renan e Jucá estão juntos na CPI. E a favor da CBF. O candidato à prefeitura do Rio já percebeu. Marco Polo e Ricardo Teixeira juntaram forças. E ainda são muito poderosos em Brasília…

Marco Polo ‘cedeu’ em relação ao tempo de mandato de um presidente da entidade. Ele só poderá ter direito a ser reeleito apenas uma vez. Ele tem 74 anos. Seu mandato vai até 2019. Se reeleito, sairá em 2024. Terá, então, 83 anos. Poderá se aposentar.

Diante desse quadro, Romário não votou a favor da MP, que tanto desejava. Percebeu que foi vencido no seu principal sonho. Tornar a Seleção um patrimônio público para acabar com a blindagem da CBF. Perdeu.

O mesmo poderá acontecer com a CPI da CBF. Ser o presidente poderia ser algo marcante, dar maior visibilidade política. Mas a bancada da bola conseguiu se impor. Seus representantes são fortes. Capazes de proteger não só Marco Polo del Nero, a atual diretoria da CBF, mas também Ricardo Teixeira.

Além disso há a disputa silenciosa pela prefeitura do Rio de Janeiro. Travar Romário, impedir que ele transforme a CPI em um palanque para 2016, é obrigação de Romero Jucá. Como relator, o senador de Roraima tem esse poder.

Por isso, apesar das frases provocativas, de sua revolta contra Marco Polo e Ricardo Teixeira, Romário está preocupado. Sabe que, como a MP, a CPI da CBF pode ser uma enorme decepção.

A influência da CBF é muito forte.

Marco Polo e Ricardo Teixeira são silenciosos.

Porém, muito mais poderosos do que parecem.

E juntaram força para sobreviver

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