Maranhão ocupa 5º lugar em assassinatos por conflitos no campo

Família do seu Zé da Cruz em Pirapemas olhando a casa de farinha destruída. Ele e a esposa, dora Rosa, constam na lista de ameaçados de morte da CPT. Ele ingressou em 2016 e ela em 2017. Dados parciais apontam para um aumento absurdo no Estado de pessoas ameaçadas de morte. Relatório final sai em junho de 2018.

A categoria de pessoas  ameaçadas de morte em conflitos no campo no Brasil teve um aumento significativo e impactante em 2017, diz a Comissão Pastoral da Terra (CPT) em relatório parcial divulgado nesta segunda-feira (16). Este tipo de violência bateu recorde, e atingiu o maior número desde 2003, com 70 assassinatos,  um aumento de 15% em relação ao número de 2016. No Norte/Nordeste, o Maranhão ocupa o segundo lugar em número de mortos, com 168 vítimas em 157 casos  entre os anos de 1985 e 2017. O estado líder em mortes lidera na região e no resto do país, com  466 casos e 702 vítimas. O estado de Rondônia ocupa o terceiro lugar, com 147 pessoas assassinadas em 102 casos.

No Maranhão, houve redução no número de assassinatos entre 2016 e 2017. Enquanto em 2016 foram registradas 13 mortes, em 2017, foram apenas cinco. Mas a CPT garante que não há motivos para comemoração, uma vez que os conflitos e ameaças e tentativas de homicídio contra povos e comunidades tradicionais só cresce no estado. Entre os mais ameaçados de morte está o senhor  José da Cruz, do quilombo de Aldeia Velha, em Pirapemas, no Maranhão.

Ele e sua família, desde novembro do ano passado sofrem com ataques dos que se dizem donos da propriedade. Destruíram a casa de produção de farinha e roça ameaçando a segurança alimentar de toda a família, que inclui três netos ainda crianças na primeira infância (duas com microcefalia) e sua mulher, dona Rosinete da Silva Monteiro (dona Rosa, 52 anos), que faz tratamento de um enorme câncer no pescoço e que entrará na lista dos ameaçados de morte no relatório de 2018. Juntamente com a cunhada, a Maria Lucenilde da Silva (29 anos), lavradora e quebradeira de coco babaçu. Ela foi agredida por três homens na defesa da roça, quando o único meio de sobrevivência estava sendo destruído.

A situação da família de José da Cruz é um recorte da ameaça que sofre todo o quilombo de Aldeia Velha, com 11 comunidades e 21 famílias. Em recente audiência realizada no Fórum de Cantanhede (ultimo dia 10/04), uma decisão técnica processual optou em reunir todos os processos relacionados à causa para analisar o pedido de reconhecimento do território quilombola. Mesmo que para isso situações como a do quilombola José da Cruz (57 anos), que consta como ameaçado de morte no relatório da CPT de 2016, fosse ignorada.

Em 2017, o massacre contra os indígenas Gamella, onde mais de 22 pessoas sofreram algum tipo de violência, no final de abril, e outros casos isolados aumentam os números expressamente no estado. De acordo com o advogado da Comissão Pastoral da Terra e do Movimento das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Rafael Silva, os números foram fechados e encaminhados a CPT Nacional e constarão no relatório geral a ser divulgado somente em junho de 2018, devido aos ataques de hackers sofridos nos último ano. “As estatísticas apontam um número bem expressivo e alarmante”, enfatizou.

Relatório da Comissão Pastoral da Terra está em atraso por conta de ataque de hackers

A CPT denuncia ataques de hackers que sofreu no último ano, o que impossibilitou conclusão e o lançamento de seu relatório anual, o “Conflitos no Campo Brasil”. Mesmo com o atraso em sua publicação, a CPT tem tornado públicos os dados de assassinatos  e ameças em conflitos no campo ocorridos no ano de 2017 e deve publicar o relatório completo até o mês junho deste ano.

O relatório da CPT, referencial como estatística nacional e internacional, traz análises e números sobre Conflitos no Campo envolvendo Terra, Água, Trabalho Escravo, Violência contra Pessoa que envolve ameaças, homicídios e tentativa de homicídios. Nas categorias, as pessoas são identificadas como produtores rurais, assentados, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem terra, posseiros, extrativistas entre outras. Uma categoria incluída este ano será a de quebradeiras de coco babaçu, principalmente, no Maranhão.

No aumento de mortes recorde no Brasil, destacam-se os quatro massacres ocorridos nos estados da Bahia, Mato Grosso, Pará e Rondônia em 2017.

Rafael Silva, advogado da CPT e do Movimento das Quebradeiras de Coco Babaçu, diz que os números são absurdos. “Todos os envolvidos, incluindo também os povos e comunidades tradicionais, fazem parte como vítimas do cenário violento que se instalou no campo”, comenta ele.

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