Lázaro Ramos fala de livro que junta autobiografia e questão racial: ‘É uma provocação’

‘Na minha pele’ tem ‘estratégia de provocar conversa pra gente iniciar um novo projeto de mundo’, diz. Ele participa da abertura da Flip 2017 nesta quarta-feira (26).

 

 

Lázaro Ramos já recebeu muitos elogios por causa de “Cidade de Deus” (um filme que ele não fez) e foi chamado de Zé Pequeno (um personagem que ele nunca interpretou). O relato está no recém-lançado “Na minha pele” (Objetiva), livro em que o ator alterna registros de memórias e análises sobre racismo, formação de identidade e questões de gênero.

O autor discorda que o trecho seja forte. “Era só mais uma história que exemplifica uma situação. Quando você fala ‘forte’, me dá a sensação de parecer que é um grande sofrimento”, afirma em entrevista ao G1 por telefone.

Diz isso porque, na obra, quis “falar com humor, às vezes mais contundente e às vezes mais emotivo”. “Sou assim na vida, o meu jeito de conversar é esse. Algumas coisas não são tão sérias assim. E a gente tem que brincar mesmo.” Já em outros momentos, escreve coisas como: “Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. (…) Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim”.

Aos 38 anos, casado com a atriz Taís Araújo e pai de um casal de filhos (a quem “Na minha pele” é dedicado), o ator de “Madame Satã” e “Mr. Brau” quis escrever o livro “com uma estratégia muito clara: provocar uma conversa pra gente iniciar um novo projeto de mundo.”

O assunto tem a ver com a escalação de Lázaro Ramos na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa nesta quarta-feira (26) e vai até domingo (30). Ele estará da sessão de abertura lendo trechos de “Lima Barreto: Triste visionário” (Companhia das Letras), biografia do homenageado desta edição. A autora da obra, Lilia Mortiz Scharcz, também vai estar presente.

Esta é a Flip com recorde de autores negros entre os convidados. “Penso que literatura de qualidade tem de ser vista”, diz Lázaro Ramos. Leia a entrevista a seguir:

Capa do livro 'Na minha pele', de Lázaro Ramos (Foto: Divulgação/Objetiva)

Capa do livro ‘Na minha pele’, de Lázaro Ramos (Foto: Divulgação/Objetiva)

G1 –Você faz diário ou começou a escrever o livro do zero?

Lázaro Ramos – É um registro totalmente indisciplinado (risos). Às vezes, escrevo no bloco de notas do celular, às vezes gravo áudio no WhatsApp pra Taís – e ela já sabe o que é. Quando chega uma frase muito louca, ela sabe exatamente o que é: alguma coisa que depois vou chegar em casa e botar no computador (risos).

Se você visse a quantidade de papel rasgado e guardanapo que tem na minha agenda… É uma loucura. Olho aquela bagunça e não faço a menor ideia do que é. Eu estava olhando para a minha agenda aqui, parece uma lata de lixo (risos).

G1 – O ‘Na minha pele’ é dedicado aos seus filhos. Você conta que, junto com a sua mulher, criou um mantra para eles: ‘Meu/minha filho/a, você é dono/a do seu corpo. Meu/minha filho/a, cuide do seu corpo’. E você escreve que ‘a cada vírgula’ você e a Taís dizem ‘Te amo’.

Lázaro Ramos – Sabe que essa frase, com os nossos filhos, não surgiu com esse caráter? Ela ganhou um caráter de mantra depois. A gente, na verdade, falou isso instintivamente porque às vezes ele ficava subindo em coisas, caindo…

O primeiro sentido foi esse – olha como são as coisas. Assim, de cuidar do corpo literalmente: “Para de subir em lugar alto, doido! Tu vai cair e vai se quebrar todo…”. Depois, isso acabou ganhando um outro sentido, né?, de valorizar o nosso corpo e cuidar. E de se saber dono de seu corpo.

G1 – Por que o livro chama ‘Na minha pele’?

Lázaro Ramos – Acho que, para degustar esse livro, é importante que a gente o entenda também como um livro impreciso. O diálogo sobre formação de identidade e raça no Brasil às vezes passa muito por certezas absolutas.

“A proposta é ser um pouco mais impreciso, mais maleável – mesmo falando de dores e de certezas que tenho. Mas [a ideia era] ele ser uma provocação, uma conversa íntima. ‘Na minha pele’ ao mesmo tempo fala sobre aproximação. E a pele ganha um outro sentido: a gente conversar, entender e tentar gerar empatia.”

G1 – Você conta que, no passado, sempre que via ‘algum personagem com a tez mais escura, ele era ou um melhor amigo engraçado ou um coadjuvante esporádico’. Que efeito isso provocava em você?

Lázaro Ramos – Não vamos entrar nisso, cara… Vou fazer lamentação agora aqui?

G1 – Não estou propondo lamentação.

Lázaro Ramos – É porque isso, fora do contexto, vira outra coisa. Deixa eu te falar uma coisa legal…

G1 – A gente pode andar o assunto, se você quiser. Não tem problema.

Lázaro Ramos – Não, não. Vamos falar sobre isso, que é importante. O livro vai me levando também a ter descobertas. Numa próxima edição, vai virar um outro negócio. Tem uma frase muito bacana, que eu encontrei sobre esse assunto, que é o seguinte: uma produção cultural mais diversa é muito mais legal, muito mais potente.

Acho que a gente se perde naquilo que oferece aos filhos quando não entende que a diversidade cultural é potência criativa e é potencial de saberes também.

G1 – O livro não é combativo, agressivo. Você até diz que seu tom era de ‘uma delicadeza consciente’.

Lázaro Ramos – Mas o que é um combate? E aí vou te dizer: esse livro teve uma mudança, sim, depois de dez anos de escrita.

No ano passado, quando comecei a finalizar, entendi que o combate que ele deveria exercer neste momento histórico do Brasil, no nosso contexto, em que as polarizações são grandes, em que as definições do que é certo ou errado são ditas como verdades absolutas, em que parece que as pessoas só podem ser ou uma coisa ou outra – esse sentimento me contaminou na escrita do livro.

É um livro estrategicamente escrito para o momento do país. Com uma estratégia muito clara: provocar uma conversa pra gente iniciar um novo projeto de mundo. Ele é absolutamente contaminado pelo ano de 2016.

É uma estratégia de combate. Sem sonegar nenhum assunto ou dor.

“Fala sobre genocídio de população negra, situações de discriminações, de ‘silenciamento’ que a gente vive cotidianamente, a situação da mulher negra no nosso país… Tudo está sendo dito, só que com o combate de tentar conectar pontas.”

É isso que está faltando na nossa narrativa de hoje em dia, pra gente conseguir construir um novo projeto de mundo.

G1 – Você diz que às vezes as pessoas dão parabéns por ter feito ‘Cidade de Deus’. No livro, você escreve uma frase forte, dizendo que, nessa situação, se sente ‘solitário na compreensão daquele engano’.

Lázaro Ramos – Você acha forte? Caramba, ó como são as coisas… Mas não é uma piada?

G1 – A parte em que a pessoa te chama de Zé Pequeno e você escreve ‘Viva Leandro Firmino’, sim. Mas aquilo de se sentir ‘solitário na compreensão daquele engano’ parece forte.

Lázaro Ramos – Cara, mas é a sua sensação. Tenho sensações muito particulares. Quando escrevi, era só mais uma história que exemplifica uma situação. Quando você fala “forte”, me dá a sensação de parecer que é um grande sofrimento.

G1 – Eu não me referia a isso.

Lázaro Ramos – Então fala aí: por que é que você achou forte?

G1 – Porque é uma autorreflexão e não parece que você fica constrangido. Você se sente ‘solitário’ porque percebe o engano – e a outra pessoa não.

Lázaro Ramos – É, entendo. Acho que é uma percepção bem particular (risos).

G1 – No livro você menciona um conflito por fazer parte de um esquema, no trabalho, que não necessariamente te representa. Cita, por exemplo, a recusa em interpretar escravos na TV. Pode falar de algum papel que não quis fazer?

Lázaro Ramos – Ah, nunca falo as coisas que não fiz. Não acho legal, não é bacana. Há, inclusive, coisas que recusei e que são obras muito legais. A recusa não tem a ver com qualidade da obra; tem a ver com a história que você quer construir para você. Tão somente isso.

“Não me arrependo de nenhum trabalho que eu fiz. Nem o ‘Cinderela baiana’, nem o ‘Woman on top’ [‘Sabor da paixão’], que acho que não são filmes ruins! E nem de nenhuma recusa. Não tenho arrependimento.”

G1 – Que obras de ficção causaram em você essa sensação de representação coletiva dos negros?

Lázaro Ramos – Às vezes, quando se fala de representação coletiva, parece que a gente está falando sobre uma cobrança ou sobre uma demanda social. E não sobre o campo vasto de possibilidades criativas.

“Quando você vê ‘How to get away with murder’, ‘Black-ish’ ou uma série popular, como era ‘Fresh prince of Bel-air’ – olha quanto potencial tem aí, e olha quanto a gente ainda pode construir dentro da nossa história, desde histórias oficiais até arquétipos novos de personagem. A comunicação e o entretenimento precisam se renovar.”

G1 – O livro tem piada e autoironia. Logo após escrever que ‘Monteiro Lobato não me representa’, você diz que o leitor pode ficar com medo de você usar termos como ‘empoderar, sustentabilidade e quinoa’. É para desarmar quem quiser encher o seu saco?

Lázaro Ramos – (Risos) Não é só para desarmar, não, cara. Sou assim na vida, o meu jeito de conversar é esse, na minha intimidade com as pessoas. Algumas coisas não são tão sérias assim. E a gente tem que brincar mesmo.

Nesse livro, sou muito feliz com as histórias que são contadas, a narrativa. Mas o que tenho mais orgulho é com essa imprecisão narrativa, em poder falar com humor, às vezes mais contundente e às vezes mais emotivo.

G1 –Algum comentário de leitor do ‘Na minha pele’ marcou mais?

Lázaro Ramos – Do meu pai. Que é um homem muito calado, hoje em dia muito mais próximo, inclusive, do que na minha adolescência. Sempre trabalhou muito, é um exemplo para mim.

“O meu pai me mandou um e-mail tão lindo,mais um ponto na nossa relação afetiva. Imprimi e está guardadinho com a minha cópia do livro.”

Tem essa coisa linda que está acontecendo, de as pessoas fazerem a foto com a capa no rosto. Ou as pessoas que entram nas redes sociais e mandam mensagens lindas e emocionadas. Ou pessoas que achei que nunca iriam ler o livro. Por exemplo, teve um grande empresário, de uma multinacional, que mandou uma mensagem dizendo que ficou tocado.

G1 – O que o seu pai escreveu?

Lázaro Ramos – Entre outras coisas, o que mais me tocou foi que ele disse ter visto coisas que ele nem percebia que aconteciam. Ele falou: “Entre silêncios e qualidades”. Isso é lindo demais.

G1 – Você escreve que, quando estava no colégio, os pares nas festinhas se formavam e você ficava de canto. Aí, quando a menina dava papo, você mal conseguia falar com ela porque não tinha prática. Um livro como ‘Na minha pele’ talvez tivesse ajudado.

Lázaro Ramos – Acho que sim (risos). Acho que me ajudaria bastante, e digo isso porque tem um monte de menino jovem que diz: “Está me ajudando numas reflexões aqui”.

Ajudaria, mas também a gente tem que ter noção de que pai dá vários conselhos, fala que já fez isso, viveu isso, sofreu isso, conquistou isso, mas a gente aprende mesmo na vida, não adianta… Na verdade, é um alerta, mas não é uma garantia.

G1 – Você vai estar na Flip, que vinha sendo questionada pela ausência de escritores negros e agora tenta reverter. O que acha disso?

Lázaro Ramos – Penso que literatura de qualidade tem de ser vista. Quando você vai ver a programação deste ano, tem tanto autor de qualidade, tanta gente para debate e proposta interessante…

Vai ser um ano muito importante, por isso inclusive que estou assim abrindo mão de convites porque acho que tem muita coisa para adquirir ali e degustar. Estou indo nesse foco, vou sair de lá enriquecido.

G1 – Em 2016, o então curador da Flip reconheceu que faltavam negros na programação mas alertou que também faltavam na plateia e que um evento desse tipo, sozinho, não tem como resolver sozinho essa situação.

“Claro, mas nenhum evento, nenhuma empresa, nenhuma pessoa consegue resolver nada sozinho. Mas os gestos, que podem ser simbólicos ou efetivos, são muito importantes para a transformação do todo. Além de provocar mudanças – que podem parecer pequenas, mas não são –, trazem reflexões.”

O ator Lázaro Ramos (Foto: J.F. Diorio/Estadão Conteúdo/Arquivo)

O ator Lázaro Ramos (Foto: J.F. Diorio/Estadão Conteúdo/Arquivo)

 

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