Governadores têm embates frequentes com PSL de Bolsonaro

SÃO PAULO — Governadores eleitos na esteira da popularidade do presidente Jair Bolsonaro em 2018 mantêm relações tensas com o PSL. Em São Paulo, a sintonia da legenda com o governo tucano de João Doria não é afinada. Segundo interlocutores do partido, “inexiste uma relação de confiança”, e o apoio dado pela sigla aos projetos do governo na Assembleia Legislativa (Alesp) se deu até agora em razão do “mérito” das propostas, e não da concordância entre os pares. Daqui para frente, avaliam, a relação só vai piorar, com Doria colocando-se de forma mais ostensiva na disputa ao Planalto em 2022. A falta de alinhamento entre PSL e governadores também passa por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Líder do PSL na Alesp, Gil Diniz não tem feito esforço para se aproximar de Doria. Entre janeiro e este mês, o governador foi seis vezes à Casa. Diniz esteve presente apenas no primeiro encontro. Adalberto Freitas, vice-líder do PSL, disse que houve um “afastamento leve” da legenda em relação ao governo, com a aproximação das eleições municipais, em 2020.

— Não dá para ser amigo do cara querendo disputar o cargo dele — acrescentou Freitas, desta vez em alusão à relação de Bolsonaro com Doria e a disputa de 2022.

No ninho tucano, a avaliação é diferente. Para o PSDB, a posição do partido frente ao PT repercute bem entre os integrantes do PSL. A agenda liberal de João Doria, também. Os projetos do governo para o enxugamento estatal receberam apoio maciço da sigla de Bolsonaro, fato que é usado pelos tucanos para justificar a “coesão”.

— Desde o primeiro dia, o líder deles nos disse que eles seriam independentes. E foi assim. Eles votam nos projetos que acham bons e têm ajudado muito o governo, mas não digo que sejam aliados. Estão hoje da mesma forma que começaram, lá em março — disse Carlão Pignatari (PSDB), líder do governo na Alesp.

Casos se repetem

Já em Minas Gerais, não há um alinhamento total e irrestrito do PSL com o governo de Romeu Zema (Novo), segundo o líder da sigla na assembleia mineira, Coronel Sandro. Mas o parlamentar não aposta em um afastamento.

— Nós defendemos algumas pautas em comum, principalmente pautas econômicas, e naquilo que estiver alinhado aos nossos princípios. Mas, se o governo de Minas desrespeitar o presidente, estarei ao lado do Bolsonaro — disse.

Zema afirmou, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, em agosto, que Bolsonaro deveria evitar “pautas minúsculas” e “focar em coisas maiores, grandiosas”. Críticas costumam irritar o presidente.

No Rio Grande do Sul, o recado do PSL para o governador do estado, Eduardo Leite (PSDB), também eleito na onda bolsonarista, é o mesmo.

— Ainda não há reações contrárias por parte do governo do estado. Se isso acontecer, obviamente que a postura do PSL gaúcho será diferente na relação com o Executivo gaúcho — afirmou o deputado Coronel Zucco, líder do PSL na Assembleia Legislativa.

Atuação independente e crítica ao extremismo marcam perfil de alguns quadros moderados do PSL, abertos a diálogo com a esquerda e distantes das pautas ideológicas do presidente. O governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, é um deles.

Moisés já foi chamado de comunista em suas redes sociais e sofreu uma enxurrada de críticas após ter colocado à disposição dos estados da Amazônia a tropa estadual de policiais ambientais e bombeiros.

Outras acusações de “esquerdismo”, diz o governador catarinense, vieram quando a Polícia Militar do estado incluiu na programação do seu curso de formação de sargentos uma aula de como lidar com transsexuais em situação de rua.

— Esse grupo extremista disse que eu, como sendo de esquerda, fomentei o discurso LGBT dentro das forças militares. Não tem nada disso. A PM está no caminho certo — diz Moisés, ao afirmar que grupos tentam colocar nele a “pecha que não serve”.

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