Bumba meu boi da baixada: tradição, riqueza e diversidade na cultura maranhense

O sotaque é considerado um dos mais importantes do bumba meu boi do Maranhão.

O bumba meu boi representa a expressão cultural de maior apelo popular do Maranhão, com uma mistura de influências que traduzem a natureza da composição étnica do estado. Características ibéricas, indígenas e africanas formam parte dos ritos celebrados em danças, cantos e sons.

O sotaque da Baixada, ou sotaque de Pindaré, originado na porção norte do estado – em municípios como São Bento, Cajari, Monção e Viana –, traz singularidades estéticas nas vestimentas e nos instrumentos utilizados por seus brincantes. Matracas, pandeiros e maracás figuram entre as percussões executadas em sonoridade compassada, em afinidade com parte do estilo característico do folguedo.

Para alguns estudiosos do estilo, os passos cadenciados dos participantes de grupos de sotaque da baixada encontram eco no gingado sutil dos sambas de roda. Ao ritmo vagaroso da dança, atribui-se o peso de adereços como os chapéus de fita – tradicionais entre os representantes do timbre da baixada –, confeccionados para as apresentações, com peso notável a quem os veste.

Indumentária e estilo

Vestes padronizadas, com delicada costura – cheias de brilho e notável singeleza –, somam-se aos chapéus de pena cujo tamanho reflete a imponência de um legado histórico.

A constituição do sotaque, ao longo dos anos, é parte de combinações à luz de consequências temporais e ambientais. Os padrões dos adereços, nos bois da baixada, têm notável influência da vida no campo. Penas, folhas de bananeira e pele de animais eram parte do material confeccionável para as apresentações, no período junino, durante a segunda metade do século XX.

A influência, contudo, dos grupos de boi naturais de São Luís – com destaque para a exuberância de cores e um padrão de vestuário para os membros, ao longo das cerimônias –, veio a ser adotada, posteriormente, entre algumas agremiações. A presença de índios e índias também ganharam destaque como algumas das incorporações feitas ao longo do tempo.

Diversidades do sotaque

A forte presença do sotaque de baixada em cidades do interior do Maranhão resulta em peculiaridades: a forma dos timbres sonoros é heterogênea, devido ao trato com os instrumentos, por vezes fabricados com pele de animais e aquecidos ao redor de fogueiras. O padrão rítmico das toadas também é resultado das possibilidades abertas pelas concepções musicais que permeiam a imaginação dos instrumentistas, atentos à tradição como farol.

O Cazumbá – um dos elementos-chave entre os grupos de sotaque da baixada, com alegria e movimentações que capturam a atenção dos espectadores –, traz no nome o componente que ilustra a variedade de informações identificáveis no sotaque. Em outras regiões do Maranhão, a pronúncia usual costuma ser Cazumba, e seus trajes obedecem, acima de tudo, à criatividade. O prestígio da adorável criatura é diferenciado, com funções específicas dentro das cerimônias juninas.

A professora do Departamento de Artes Visuais, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Elisene Castro Matos, explica que a divergência em relação ao nome é decorrente da categorização intelectual utilizada para identificar os conjuntos de boi do estado.

“Aqui em São Luís, também, a gente tem diversos grupos do sotaque da baixada, principalmente localizados na região da Liberdade e Bairro de Fátima, que são os bairros onde essas pessoas, que foram brincantes ou são brincantes, vieram de municípios da região da Baixada […] as pessoas começaram, então, a criar os grupos muito parecidos com o que eles tinham na região da Baixada”, concluiu.

As vozes do tempo

Os alicerces do sotaque da baixada são formados em histórias de vida, lideradas por paixões e compromissos com a beleza. O cantor, compositor e presidente do Boi Linda Joia, Manoel Pinheiro dos Santos, de 69 anos, trouxe a cumplicidade familiar como elo artístico. Ainda na infância, a figura de seu pai tornou possível a afeição pelo período junino.

Nos dias de junho dos anos 1950, Manoel observava atentamente a produção artesanal do boi, na própria casa, realizada por seu pai. A extração da madeira – fundamental para o processo –, precedia o momento de distração, com rigor e obediência aos ciclos da natureza e ao entendimento da ciência que a vida os ensinava.

“Eu, menino, quando meu pai ia fazer o boi, eu ficava no meio. Ele tinha o conhecimento natural, de quando que ele tirava a madeira; tinha o tempo certo; a lua certa […] ele tinha a ciência dele”, disse.

O fator religioso predominava nas brincadeiras de São João, à época. As promessas ocupavam o centro das motivações entre os participantes do boi. A diversão, no entanto, era amiga dos momentos de congregação e fé.

“A brincadeira de bumba-boi começava 23 e, no dia 30 (de junho), encerrava. Ninguém podia passar do dia 30, porque senão era castigado; tinha problema. Era devoção, também, não era uma atividade de shows […] o (boi) Linda Joia era um desses”, contou.

Para o cantador Raimundo Miguel Ferreira, conhecido como ‘Mestre Raimundinho’, a influência do Bumba meu boi também o acompanha desde a infância, em povoados do interior do Maranhão. As brincadeiras com os cofos do boi cenográfico, quando criança, já ilustravam o seu interesse pelas festividades juninas.

Com 16 anos, ao soltar a voz, como cantor, em um grupo de boi, pela primeira vez, Mestre Raimundinho selou parte de sua trajetória, consolidada em mais de 60 anos dedicados ao canto popular. Sua voz e sua poesia alentam a alegria dos brincantes do boi União da Baixada.

Tendo chegado a São Luís, nos anos 1980, sua atuação em grupos do sotaque da baixada repercutiu na criação do Boi de Santa Fé, considerado um dos conjuntos de bumba meu boi mais tradicionais de São Luís.

“Eu comecei no bumba meu boi com 16 anos. Há 65 anos que eu vivo isso. Comecei, no dia 5 de maio de 1988, um dos fundadores do Boi de Santa Fé. Quando eu fundei, ainda era (boi) Pindaré dois’’, comentou.

Mestre Raimundinho explica que o processo de feitura das toadas o acompanham espontaneamente, em um ritmo de composição ágil, permeado por temáticas que refletem momentos distintos de sua vida, entre a realidade rural e a rotina na capital.

“Tiro as minhas toadas, eu mesmo. Eu mesmo tiro; eu mesmo canto. Sou cantor e compositor”, fala orgulhosamente.

Quanto à passagem geracional das tradições do sotaque de baixada, Mestre Raimundinho vê dificuldades: cativar os jovens, para manter de pé a herança histórica, é um dos maiores desafios enfrentados.

“Tem uma discriminação muito grande com o sotaque de baixada. Eles (jovens) procuram mais o de orquestra […]”, diz.

À espera do São João deste ano, Manoel Oliveira e Mestre Raimundinho acompanham atentamente os preparativos para as festividades de junho. O desejo é cessar a angústia dos últimos anos sem brincadeiras, danosos, inclusive, para a manutenção dos bois tradicionais, que sofreram com dificuldades financeiras.

“O que nós quer (sic) é estar com saúde, para fazer aquilo que a gente gosta de fazer. Estamos aí, depois desses anos, para fazer o que a gente gosta e São João quer”, concluiu Mestre Raimundinho, com otimismo.

“A nossa expectativa, em primeiro lugar, é preencher o vazio dos dois anos que a gente passou sem brincar e alegrar o coração com a brincadeira do bumba meu boi. Espero, em Deus, que a gente faça um São João bom e bonito para tirar de nós o vácuo que ficou com a pandemia. Que a gente possa fazer, primeiro, o que já é a nossa tradição; a nossa devoção; a nossa fé”, disse Manoel Oliveira.

Os sotaques de boi da baixada reluzem a herança cultural de famílias e a luta pela memória social. O São João, para os brincantes, é, antes de qualquer coisa, um reencontro com a própria vida. O bailado do boi e a força das toadas trazem a ingenuidade marcante da infância aos participantes experientes, ao passo em que mostra, às novas gerações, um futuro em que a beleza não encontra restrições. É a nobreza popular.

Matéria G1 MA.

você pode gostar também Mais do autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.