Audiência pública realiza amplo debate sobre o fechamento de agências do BB no Maranhão

Foi amplamente debatida em audiência pública realizada no Plenarinho da Assembleia, na tarde desta terça-feira (29), o fechamento de agências do Banco do Brasil (BB), em São Luís, especificamente, a do Bairro Anjo da Guarda, e no interior do Estado. A iniciativa partiu do deputado Max Barros (PRP), que coordenou os trabalhos, e teve a participação dos deputados Bira do Pindaré (PSB), Levy Pontes (PC do B) e líder do Governo, Francisca Primo (PC do B), Zé Inácio (PT) e Eduardo Braide (PMN).

Compuseram ainda a mesa de debates do tema o Superintendente Estadual do BB, Ingo Kaobarg Júnior, a presidente do Conselho Comunitário Pela Paz do Bairro Anjo da Guarda, Glória Collins, e o Pró-Reitor de Assuntos Estudantis da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), João de Deus. O Diretor do Procon do Maranhão, Duarte Júnior, dezenas de populares e representantes de diversas associações comunitárias e sindicatos marcaram presença e debateram a problemática.

“Estamos aqui para debater um tema de grande relevância e cumprir o nosso papel institucional, que é o de intermediar os problemas sociais, e esse é um problema social grave”, esclareceu o deputado Max Barros ao abrir a audiência.

AS CAUSAS

O superintendente do BB explicou, inicialmente, que o banco é uma empresa de economia mista, de mercado, mas com espírito público, que precisa se reestruturar para poder face à situação conjuntural da economia global e, especificamente, a brasileira, que vive uma de suas mais graves crises. “Somos uma instituição com 208 anos de existência. Não temos prazer em fechar agências, o fazemos por necessidade. Não é a primeira reestruturação que o banco faz. Buscamos gerar o menor impacto possível à nossa clientela. O BB não abandonou nenhuma comunidade”, esclareceu.

“Nossos pares privados (Bradesco, Itaú, etc.) fizeram sua reestruturação, demitiram funcionários, nós não. Temos um lucro grande, mas nosso capital é pequeno, em torno de 10%, enquanto que o dos pares privados é de 15% a 19%. Por outro lado, a Resolução de Basiléia, que passa a regular o mercado financeiro a partir de 2019, exige que o capital próprio seja equivalente aos empréstimos que faz”, argumentou o superintendente do BB.

Segundo Ingo Kaobarg, hoje, mais de 60% das transações realizadas acontecem por meio de smartfhone e a previsão é de que, até 2020, 40% dos clientes do banco sejam de nativos digitais, ou seja, clientes que utilizam as novas tecnologias de comunicação. ”Muito em breve, 75% de nossas receitas vão vir desse público”, frisou.

“O cliente é que está exigindo que o banco seja digital. As adaptações que estamos realizando, com a instalação dos chamados escritórios digitais, não excluem de maneira alguma os clientes que não fazem uso das novas tecnologias. Há três anos que testamos esse modelo. É uma realidade que estamos vivendo. Ou a gente se adapta ou está fadado a desaparecer”, salientou Ingo Kaobarg.

NÚMEROS DA REESTRUTURAÇÃO DO BB

“No Brasil, em torno de 402 agências e 31 superintendências foram fechadas. No Maranhão, as duas superintendências foram mantidas, mas foram fechadas cinco agências (quatro pequenas e um posto de atendimento) e, por outro lado, inauguradas quatro grandes agências. Espalhadas pelo estado, ao todo, existem, hoje, 109 agências, 197 postos de atendimentos eletrônicos (PAE), 32 Postos de Atendimento (PA) e 261 bancos 24h, dentre outras modalidades de atendimentos”, revelou Kaobarg.

O CASO DA AGÊNCIA DO ANJO DA GUARDA

Com um pouco de mais de dois anos de funcionamento, a agência do BB do Bairro Anjo da Guarda, instalada graças a luta dos moradores da área Itaqui Bacanga, há nove dias fechada, contava com 2 mil clientes pessoas físicas e 35 pessoas jurídicas. Contava com um movimento de 80 atendimentos diários no caixa e 25 em carteira. Para o BB, esses números caracterizam um pequeno fluxo, razão que levou a necessidade de sua fusão com a agência instalada no Campus da UFMA, para onde foi transferido o banco de clientes da agência do Bairro Anjo da Guarda.

DEBATE

Glória Collins, do Conselho Comunitário Pela Paz, disse que viveu um momento de euforia com a instalação da agência do BB no Bairro Anjo da Guarda, em 2014, mas que foi surpreendida com o fechamento da agência. “O BB é nosso, é do povo brasileiro. Essa decisão tomada em nível nacional tem que levar em conta nossa realidade. Nossa comunidade precisa de agências bancárias, pois somos uma população de mais de 300 mil habitantes. Nem todos temos smartfhone. Tem que se pensar em quem não tem”, argumentou.

“Essa decisão de fechar agência é unilateral. Não fomos consultados. Se a agência tinha um fluxo considerado pequeno, é problema de gestão. É preciso se atender quem mais precisa. Por que não se fecha uma das agências do Bairro Renascença. Essa decisão feri o sentimento de conquista da comunidade. Lutamos muito para conseguir essa agência”, protestou Ivan Júnior, morador do Anjo da Guarda.

“Temos laços muito fortes com a comunidade Itaqui Bacanga. Vemos a situação criada como um complicador e precisamos encontrar uma solução que minimize os danos causados. Reconhecemos a disposição de diálogo do BB. Entendemos o sentimento da comunidade e defendemos que o público com um grau de instrução menor é que mais necessita desses serviços”, pontuou o Pró-Reitor de Assuntos Estudantis da UFMA.

Para o presidente do Sindicato dos Bancários do Maranhão, Elói Natan, a reestruturação do BB faz parte de um conjunto de medidas do Governo Federal que visam destruir as empresas públicas. “No Maranhão apenas 9,8% da população tem acesso à Internet, é o menor percentual do Brasil. Como tomar uma decisão desse tipo sem considerar cada realidade. O objetivo do BB é economizar R$ 720 milhões com esse processo de reestruturação, utilizando o processo de pressão para obrigar os trabalhadores a se aposentar”, denunciou.

“Já assiste a esse filme, nos anos 90, no Governo de FHC, quando presidia o Sindicato dos Bancários. Na época, o discurso era o mesmo. Foram tempos terríveis. É a mesma linha de argumentação vencida pelo tempo. Na verdade tudo isso que está sendo feito é para atender interesses do capital financeiro. Vivemos uma crise de arrecadação, não de despesa. Essas medidas de controle dos gastos públicos não resolvem a crise, pois levam a atividade econômica a se retrair. O Estado tem de se expandir e não diminuir. Temos que reagir e convencer o governo a adotar medidas que dinamizem a economia”, assinalou o deputado Bira do Pindaré.

Por sua vez, o deputado Levy Pontes questionou o atendimento deficiente das agências do BB por falta de funcionários e a falta de dinheiro nos caixas eletrônicos, principalmente em dias de feriados e finais de semana. “Como explicar essa situação que acontece nas agências do interior do estado”.

“Em Buriticupu vivemos a ameaça de fechamento da agência do BB, que não vem funcionando normalmente depois que foi assaltada. Tem dia que não tem dinheiro. Em Olho D’água das Cunhãs a agência foi fechada. A população e o comércio estão sofrendo sérios prejuízos”, gostaria de ter esclarecimentos, manifestou-se a deputada Francisca Primo.

O deputado Eduardo Braide defendeu que seja exigida a contrapartida do BB de manter e ampliar a rede de atendimento no Estado, quando da renovação do contrato de exclusividade de pagamento da folha de pessoal do Poder Legislativo. “Apresentei requerimento que foi aprovado por esta Casa, solicitando que a direção do BB reveja sua decisão de fechar a agência do Bairro do Anjo da Guarda. Acho uma injustiça com a área Itaqui Bacanga”, acrescentou.

Max Barros afirmou que a população é o maior acionista do BB, precisa ser ouvida e que o BB deve cumprir com sua função social enquanto agente econômico. “Porque não ouvir a comunidade e transformar os moradores em clientes. Acho que o melhor caminho é o diálogo. O Brasil vive, hoje, a maior crise social de todos os tempos com mais de 12 milhões de desempregados”, alertou.

AÇÃO CIVIL PÚBLICA DO PROCON

O diretor do PROCON, Duarte Júnior, anunciou que a posição do Governo do Estado é contrária a decisão do BB e que o órgão moveu uma Ação Civil Pública na Vara de Interesses Difusos e Coletivos, conseguindo uma liminar que suspende o fechamento de agências. “Se resolve crise com capacidade de gestão e não rasgando os direitos sociais. A realidade do serviço bancário é dramática. Essas medidas não têm amparo constitucional e ferem o Código de Defesa do Consumidor (CDC).  O BB tem que economizar na publicidade e focar na qualidade”, defendeu.

ENCAMINHAMENTOS

A Audiência pública deliberou articular a discussão sobre a construção de um prédio, por intermédio da parceria público privada (PPP) e cessão do terreno por parte da UFMA, para abrigar várias agência bancárias; a formação de uma comissão de deputados das bancadas federal e estadual para ir à direção do BB, em Brasília; a apresentação de alternativas do BB para os casos das agências já fechadas; desencadear um movimento de incentivo a população do Itaqui Bacana a se tornar cliente do BB e a exigência da contrapartida do BB de manter e ampliar a rede de atendimento, quando da renovação do contrato de exclusividade para o pagamento da folha de pessoal do Poder Legislativo.

AVALIAÇÃO

“Esperamos que a realização dessa audiência não tenha sido em vão e que os encaminhamentos aqui tomados sejam levados às instâncias superiores. Acho que hoje apenas iniciamos a luta. Esperamos que, em parceria com a população, possamos encontrar a solução para esse grave problema social”, avaliou Max Barros.

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