As pernas roliças de nossos filhos

Outro dia encontrei uma amiga que fazia vinte anos que não via. Primeiro foi o susto – mania que as pessoas têm de colocar fotos mais jovens e magras no facebook – mas quando as lembranças dos traços vão tomando forma a gente começa a relaxar e colocar as conversas em dia. E que conversas! Duas décadas têm assunto de sobra para muitas horas de prosa, mas minha amiga até que não se estendeu em me colocar a par dos amigos que perdi contato. Apaixonada por crianças, tão logo viu meus filhos apressou-se em falar dos seus, ou pelo menos do que foram seus filhos dez anos atrás.

– Cresceram, amiga. E quando crescem, a gente os perde – disse a mulher com olhar perdido no horizonte.

Também não era para tanto. A filha de 22 anos morava com ela e o rapaz, então com 25, estava trabalhando em São Paulo. É da vida, estão produzindo, dá saudade, vá bene, mas dizer que perder não é um pouco demais?

Então veio a explicação. Ou melhor, a comparação. Minha amiga apontou as pernas roliças de meu filho de cinco anos.

– Tá vendo? São as perninhas mais doces do mundo, não são? É só olhar em volta – disse ela correndo o dedo indicador por todo o parque. – Quem tem filho pequeno está brincando com ele totalmente inconsciente do futuro que os esperam…

O tom se tornou melancólico, e a voz assumiu um acento mais nostálgico do que trágico, o que de qualquer maneira anunciava uma inconformidade em relação ao destino de seus filhos.

– Eles crescem, – explicou – e a vida bate de relho neles. E sabe o que podemos fazer, amiga ? Quase nada.

O relho tinha nome. O namorado da filha, de acordo com minha amiga pessoa de pouco afinidade com o trabalho, dava o que fazer à mãe de uma moça que insistia em se fazer de surda. “Ele vai melhorar, mãe”. Mas não melhorava. Minha amiga confessou ter vontade de ela mesma pegar o relho e deixar a filha bem roxa até abrir os olhos e ver que estava jogando sua vida pela janela.

Olhei para meus filhos. Por alguns segundos senti raiva das namoradas que um dia me serão apresentadas. E se forem dessas de ficar com as pernas para cima e deixar que meu filho, então apaixonado, faça tudo¿ Quando se tem filhos fica mais fácil visualizar o futuro, por mais distante que ele possa parecer. Entendi o recado: ali na frente as coisas sairão do meu controle. As pernas roliças cada vez maiores e mais cabeludas vão correr para longe de mim por estradas que se quer estão pavimentadas, mas que terão potencial de levar meus tesouros para caminhos tortuosos e de difícil retorno. – E o que posso fazer hoje para estar perto deles quando esse tempo chegar? – perguntei. A resposta não podia ter sido mais simples.

– Role na grama com os pequeninos, que ainda nem trocaram os dentes, e leve esses momentos para dentro da alma. Acredite, é fôlego guardado que você vai usar quando precisar se embrenhar lodo adentro quando começarem os tropeços de seus filhos.

O combustível que não nos deixa cair é justamente essa lembrança, me esclareceu. A jovem cheia de tatuagens que diz saber o que faz da sua vida é a mesma dona das perninhas roliças que outrora apertavam a cintura da mãe, com a certeza de que ela não a deixaria cair, dizendo, com suas palavras limitadas, que a amava de montão. E era em nome daquela menininha que brincava no parque agarrada à sua mãe que minha amiga se mantinha no firme propósito de levar sua filha para uma estrada mais segura.

Na dúvida, brinquei com os meus pequenos até os mosquitos anunciarem o fim de mais um dia, incômodo fácil que ainda posso afastar com calças cumpridas e um abano de mão.

Vivian Weiand

você pode gostar também Mais do autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.