Internos do Sistema Prisional estadual constroem novos caminhos através do trabalho

“Eu aprendi o ofício de pedreiro e carpinteiro com meu pai quando ainda era criança, mas infelizmente me envolvi com coisas erradas. Hoje, tenho a oportunidade de trabalhar, mesmo ainda estando preso. Saio cedo lá de Pedrinhas e venho ajudar com a reforma aqui no prédio. É isso que quero para minha vida quando terminar de cumprir minha pena. Vou trabalhar, já tenho um emprego garantido quando sair. Vou criar meus filhos e voltar a estudar”, conta Wando dos Santos Silva

Wando dos Santos Silva, interno do sistema prisional de São Luís. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Wando dos Santos Silva, interno do sistema prisional de São Luís. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Ele é um dos cinco internos que formam a equipe do Complexo Penitenciário São Luís que ajuda na requalificação do prédio da Secretaria de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano (Secid), por meio de parceria com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap).

Assim como Wando, que já cumpriu quatro dos 17 anos determinados pela Justiça, os outros internos do grupo estão em regime semiaberto, uma espécie de progressão do regime garantido por lei, e principal critério para que os internos possam trabalhar nas obras. Edson Fernandes, de 28 anos, que há cinco meses participa do trabalho externo, também compõe a equipe que já realizou pintura, reboco, colocação de piso e reparos nas instalações elétricas e hidráulicas do prédio.

“Eu ajudo aqui como pedreiro e só penso em sair logo e voltar para o convívio com meu filho. Essa é uma fase da minha vida que teve a parte ruim, mas agora estou superando. Só com trabalho que se melhora, sendo honesto e voltando ao mercado de trabalho”, explica enquanto reboca uma das paredes do prédio.

Detentos ajudam na requalificação prédio SECID. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Detentos ajudam na requalificação prédio SECID. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Com os trabalhos prestados, os internos vão diminuindo o tempo de suas penas já que três dias trabalhados equivalem a um dia de reclusão a menos, conforme previsto na Lei de Execuções Penais (LEP). “Além de passar o dia trabalhando e ocupando a cabeça, essa é uma forma de conseguir diminuir nossos dias de reclusão. Todos temos consciência que estamos aqui porque fizemos alguma coisa errada, mas isso não nos impede de aprender novos ofícios, que nos ajudem a conseguir a dignidade lá fora”, explicou Claudemir Silva, que aprendeu o oficio de pintor dentro do complexo e ajudou a pintar as salas e pátios da sede da Secid.

Valorização

O acordo entre as duas secretarias partiu da necessidade de reforma no prédio da Secretaria de Cidades, que já tinha todo o material necessário, mas não tinha mão de obra para realizar a obra, e o trabalho de inserção de internos no mercado de trabalho desenvolvido pela Seap.

Secretária de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano, Flávia Alexandrina. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Secretária de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano, Flávia Alexandrina. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

“A parceria com a Seap dá uma enorme contribuição a Secretaria de Cidades e ao Governo do Estado, pois na medida em que os internos do sistema penitenciário estão realizando os serviços de melhorias neste prédio, é oferecida uma melhor condição de trabalho para os servidores que aqui trabalham e é oportunizada aos internos uma forma de ressocialização por meio de um oficio. O resultado disso é a valorização de um prédio público, a valorização dos servidores públicos, a valorização do trabalho da Seap e a valorização desses internos”, destacou a secretaria e secretária de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano, Flávia Alexandrina.

Aprovação compartilhada por Silvia Linhares, funcionária pública que teve a sala de trabalho completamente reformada pelos internos. “Eles resolveram tudo, do piso ao teto, passando pelas instalações elétricas e divisórias. Tudo foi muito bem feito. É uma parceria que nos ajudou enquanto funcionários e enquanto pessoas que passaram a conviver com outras pessoas que estão em busca de novas oportunidades na vida”, explica a servidora.

Qualidade

A equipe de trabalho que revitaliza o prédio é formada por internos selecionados conforme aptidão, bom comportamento, e outros requisitos favoráveis, exigidos pelas Supervisões de Obras e Reformas e pela de Trabalho e Renda da Sejap, que acompanham os trabalhos com a coordenação de profissionais graduados.

Vilónia Moraes, engenheira SEAP. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Vinólia Moraes, engenheira SEAP. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

No caso do grupo de trabalho da Secid, a engenheira civil, Vinólia Moraes, acompanha e direciona os internos indicando a forma correta de operar. “Alguns já trabalharam com pintura e como auxiliar de pedreiro. A partir daí é que indicamos a forma correta de realizar cada atividade, desde a quantidade de areia usada para fazer massa, até a aplicação das técnicas da construção civil, por exemplo, tudo é padronizado pela engenharia afim de garantir um resultado satisfatório”, explica a profissional da Seap.

Ressocialização e Inclusão

Uma das vias para a ressocialização de internos é a profissionalização da mão de obra nos presídios. Pensando nisso que o Governo do Maranhão já garantiu o funcionamento de pelo menos uma fábrica de calçados, uniforme ou de blocos de concreto e meio-fio em cada unidade prisional do estado.

“A humanização no sistema prisional perpassa por várias etapas e uma delas, sem dúvida, é o trabalho. Ao garantirmos que esses internos tenham uma ocupação diária, estamos contribuindo, de forma efetiva, para que ele se reinsira ao convívio social de maneira digna. A proposta da gestão, para esse ano, no âmbito do trabalho, é ampliar as ações e criar mais oportunidades de trabalho e de capacitação profissional aos internos”, afirma o secretário de Administração Penitenciaria, Murilo Andrade de Oliveira.

Segundo levantamento da Seap, são pelo menos dois mil internos inseridos em ações de trabalho e renda nas mais de ais de 90 oficinas de trabalho em pleno funcionamento nos presídios do estado. As atividades variam entre padarias, malharias, serigrafias, fábricas de blocos de concreto e meio-fio, almofadas, chinelos, hortas, artesanato, vassouras, salões de beleza e outras.

Detentos ajudam na requalificação prédio SECID. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

Detentos ajudam na requalificação prédio SECID. (Foto: Orcenil Jr./Secap)

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