Família que perdeu tudo em incêndio em favela teme ficar sem casa na Cracolândia

Doria disse que vai utilizar manobra jurídica para tomar posse dos imóveis na região. ‘Vão tirar as pensões sem as pessoas terem onde morar? Constrói os prédios primeiro’, questiona mãe.

Com o jeito cambaleante de quem aprendeu a andar há pouco tempo, uma criança anda na Rua Dino Bueno, na Cracolândia, na tarde desta segunda-feira (22). “É a primeira vez que ele anda aqui”, diz a mãe, sorridente, para a avó. A saída da concentração de usuários de crack da rua permitiu que Artur, de 1 ano e 4 meses, andasse no local. Ao mesmo tempo, sua mãe, Lívia, e a avó, Leda, temem perder o quarto em uma pensão a uma quadra dali. Em dezembro de 2011, a família perdeu tudo em um incêndio na favela do Moinho.

O medo de se ver sem casa de novo apareceu porque o prefeito João Doria anunciou que iria interditar e demolir as pensões e hotéis da região da Cracolândia. O anúncio aconteceu após megaoperação contra o tráfico de drogas no domingo (21). Depois, nesta segunda-feira (22), Doria diz que vai utilizar uma manobra jurídica para tomar posse dos imóveis em caratér de emergência.

De acordo com o prefeito, a demolição dos hotéis e pensões vai começar “muito em breve”. “Diria que já a partir da próxima semana”, estimou. Alguns dos imóveis já foram cercados com tapume e outros até emparedados com blocos de concreto para impedir que moradores de rua e usuários de droga voltem a acessá-los.

Questionada pelo G1, a prefeitura ainda não especificou quais serão os imóveis derrubados.

“Em vez de tirar quem está morando aqui, tem que se preocupar com quem está na rua. [a Prefeitura] Tem que ver que as pessoas moram em pensão porque é mais barato. Vão tirar as pensões sem as pessoas terem onde morar? Constrói os prédios primeiro, né”, disse Lívia Pereira da Silva, de 31 anos.

Quando a reportagem visitou a família nesta segunda, Lívia arrumava as mochilas dos filhos Chrystal, Lucas, Lara, Miguel e Artur, de 13, 10, 6, 5 e 1 ano, respectivamente. Os cinco iam para a casa de uma tia na zona Norte, passar uma semana. “A gente não sabe quantos dias vai ficar essa bagunça aí, com a polícia entrando aqui na pensão”, disse a mãe. Nesta segunda, as crianças foram acordadas pelo segundo dia seguido pela polícia, que fazia buscas no estabelecimento.

O local já recebeu o programa Braços Abertos, mas teve o contrato encerrado. Segundo a família, o convívio com os usuários não era um problema. Para Lívia, “a operação era necessária, mas foi mal planejada”. Sua mãe, Leda Pereira, de 66 anos, concorda. “Agora a gente vai encontrar com ele [os usuários] em situação pior ainda”. As mulheres ainda afirmaram que “a culpa é dos governantes que deixam a droga entrar no país”.

No quarto, a família juntou três camas de solteiro, onde dormem Leda, Lívia, e seus cinco filhos. “No Moinho, cada um tinha uma cama”, recorda a mãe. Roupas e materiais escolares – o que a família conseguiu reconstruir – estão empilhados. Após o incêndio, que aconteceu na gestão Kassab, a família chegou a dormir dois meses embaixo de um viaduto, até passar a receber R$450 de auxílio aluguel.

Desde o começo de 2012, Lívia está cadastrada na Secretaria Municipal de Habitação e espera um apartamento em um conjunto habitacional sendo construído na Ponte dos Remédios. “Quero que o Doria acelere meu apartamento, pode colocar aí”.

Para garantir a renda da família, Lívia, que toma remédios para a depressão, e Leda, que sofre com diabetes e varizes, catam latinhas. Elas ganham R$3 a cada quilo coletado. Dos cinco filhos, cada um de um pai, apenas um paga uma pensão de R$150.

Família em pensão na Cracolândia (Foto: Paula Paiva Paulo/G1)Família em pensão na Cracolândia (Foto: Paula Paiva Paulo/G1)

Família em pensão na Cracolândia (Foto: Paula Paiva Paulo/G1)

 

 

 

FONTE: G1

 

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