Corpo de menina morta com tiro na cabeça em casa durante operação é velado nesta quinta

Vanessa dos Santos foi morta com um tiro na cabeça durante um tiroteio na favela Camarista Méier, no Lins de Vasconcelos.A Divisão de Homicídios da Polícia Civil investiga o caso.

Mãe de Vanessa mostra a foto da filha: 'ela era a minha princesa' (Foto: Alba Valéria Mendonça/ G1)

 

O corpo da menina Vanessa dos Santos, de dez anos de idade, está sendo velado na manhã desta quinta-feira (6) na capela 1 do Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte do Rio. A menina foi morta com um tiro na cabeça durante um tiroteio na comunidade Boca do Mato, no Complexo do Lins de Vasconcelos. Ela chegou a ser socorrida por PMs em uma viatura da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para o Hospital Salgado Filho, mas não resistiu aos ferimentos. A Divisão de Homicídios da Polícia Civil investiga o caso.

No velório, a mãe de Vanessa carregava um telefone celular com a imagem da menina. “Ela é a minha princesa”, dizia Adriana Maria dos Santos.

Vanessa era caçula de três irmãos e vivia na Rua Maranhão, uma das vias da Comunidade Boca do Mato, que também integra o conjunto de favelas. A menina tinha acabado de chegar da escola quando foi baleada.

A menina não é a primeira pessoa de sua família a ser vítima da violência no Rio de Janeiro. O tio dela, há cerca de cinco anos, também foi morto no Complexo do Lins. A informação foi confirmada pela avó da criança.

Leandro Monteiro de Matos fala sobre morte da filha, Vanessa, baleada na cabeça no Lins, Zona Norte do Rio (Foto: Estefan Radovicz/Agência O Dia/Estadão Conteúdo)

Leandro Monteiro de Matos fala sobre morte da filha, Vanessa, baleada na cabeça no Lins, Zona Norte do Rio (Foto: Estefan Radovicz/Agência O Dia/Estadão Conteúdo)

Em entrevista à rádio CBN na quarta-feira (5), o pedreiro Leandro Monteiro de Matos, 39 anos, pai de Vanessa, afirmou que os policiais estavam na entrada da casa da família, na comunidade Boca do Mato, e atiraram para dentro da residência.

“Não tem como eles alegarem que atiraram de longe e acertaram, que foi uma bala perdida. Não tem como, onde ela foi atingida, ter sido tiro dado de longe. E também pelo relato da madrinha que estava na hora, que presenciou eles atirando pra dentro de casa, e antes deles começarem a atirar ela pediu pra eles pararem. ‘Minha afilhada está aí, eu vim buscar porque ela chegou da escola agora’. Eles não deram tempo, já chegaram atirando”, disse Leandro à rádio CBN.

No mesmo dia, moradores do Camarista Méier e colegas da menina de 10 anos morta em casa na comunidade do Lins, na Zona Norte do Rio, realizam um protesto. Os jovens gritavam o nome de Vanessa e pediam paz e justiça.

Secretário Átila A. Nunes e parentes de Vanessa se encontraram na tarde desta quarta-feira (5) (Foto: Nicolás Satriano/G1)

Secretário Átila A. Nunes e parentes de Vanessa se encontraram na tarde desta quarta-feira (5) (Foto: Nicolás Satriano/G1)

Autoridades criticam

 

O secretário estadual de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, Átila Alexandre Nunes, classificou como “inaceitável” a situação relatada por parentes da menina. Na reunião, o pai da menina e a tia da criança, Tatiana Matos, reafirmaram que policiais militares invadiram a casa da família para trocar tiros com criminosos. No confronto, Vanessa acabou sendo baleada na cabeça e morreu – na manhã desta quarta-feira, Leandro disse acreditar que o tiro partiu da arma de um dos PMs.

“O episódio de ontem, da menina Vanessa, certamente não parece um episódio aceitável. Falando dos relatos da família, parece que foi completamente equivocado. Não cabe a um policial entrar na residência de uma pessoa sem ordem judicial, que é outra questão que todos aqui acompanham, ou seja, uma casa, numa favela, é uma residência e tem que ser respeitada. A casa foi invadida de certo modo, na prática, numa troca de tiros. E obviamente isso não pode ser aceito”, enfatizou Nunes.

O secretário também chamou o caso de “sucessão de equívocos” e contou que irá solicitar à Secretaria de Estado de Segurança (Seseg) mudanças em protocolos adotados em operações policiais. Como exemplo, Nunes entende que prisões de traficantes em comunidades podem ser postergadas, especialmente em horários de grande circulação de moradores.

O secretário municipal de Educação, Cesar Benjamin também criticou a ação da PM no caso. Ele pediu uma ação ao Ministério Público estadual contra a Polícia Militar. A declaração levou à uma reação do corporação através de seu porta-voz, o coronel Ivan Blaz.

“Nós reunimos, eu acho que, com todos os comandantes de batalhões do Rio de Janeiro. Se faltou algum é uma excessão. Reunimos com o comando da Polícia Militar . Tentamos estabelecer o diálogo levando uma agenda mínima da Educação. Essa agenda mínima é: não atacar as escolas, não estacionar o caveirão (veículo blindado) nas escolas, não atacar no horário de saída e chegada. Mas, infelizmente, essa agenda mínima, que nós queríamos transformar num protocolo comum entre a Educação e a Segurança, não prosperou. Estamos acionando o Ministério Público para agir com uma ação criminal contra ações criminosas da polícia, reclamou o secretário Cesar Benjamin.

PM responde às críticas

 

“O senhor César Benjamin tem que se comportar como um gestor público. Chefe de uma pasta muito importante para a cidade do Rio. Ele tem que sentar com outros órgãos públicos para buscar melhorias para a população e não fazer da sua pasta um palanque político, fazendo ataques vazios. Esse policiamento foi atacado. Os tiros vinham de trás da casa onde estava a menina Vanessa. O tenente Márcio Luiz (atingido no ombro) entrou na casa. Quando eles estavam no interior da casa, a menina foi atingida por tiros disparados por criminosos que estavam do lado de fora”, relatou o coronel Ivan Blaz, porta-voz da PM do RJ.

A informação do coronel é diferente da nota divulgada pela assessoria das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). De acordo com a nota, o tenente não viu a menina Vanessa e nem entrou na casa dela, sendo atingido na porta “ao tentar entrar na residência”.

“O oficial, que portava apenas um fuzil no momento da ação, durante um deslocamento para checar a reforma da base avançada na localidade Boca do Mato, ele e a equipe foram alvos de disparos de criminosos que estavam na parta alta da comunidade, mas não revidaram. Ao seguirem para localizar os bandidos, o tenente foi alertado por uma moradora sobre uma movimentação suspeita próximo à casa.

Ao tentar entrar na residência, ele foi alvejado por três disparos de pistola no colete efetuados do interior da casa. Ao se virar para proteger duas mulheres que estavam do lado de fora e se identificaram como parentes da criança, o mesmo foi atingido por outros dois tiros nas costas, também de pistola, sendo um no ombro e outro também no colete. O tenente ressalta que não viu a menina nem o suspeito em nenhum momento do ataque”, informou a nota da UPP.

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