Chuva: a angústia de quem mora nas áreas de risco

São Luís tem 60 bairros onde podem ocorrer deslizamentos por causa das chuvas, segundo a Defesa Civil Municipal; população ainda espera por obras que resolvam a situação

SÃO LUÍS ­ Se por um lado as chuvas que têm caído nos últimos dias ajudam a aliviar o calor, reclamação constante de quem mora em São Luís, por outro trazem medo a quem vive em áreas de risco. Solos e barrancos encharcados, podendo ir abaixo a qualquer momento, preocupam famílias de diversos bairros da capital maranhense. Segundo a Prefeitura de São Luís, o número de localidades nessa situação caiu, passando de 66 para 60. No entanto, nas que ainda permanecem sob monitoramento da Defesa Civil, os moradores levam seus dias em um misto de medo de possíveis acidentes e esperança de que o poder público finalmente resolva a situação.

Elzilene de Jesus Soares é moradora da Rua São Camilo, na Vila Ayrton Senna, comunidade na área do bairro São Raimundo. Há vários anos ela lida com um problema que até agora não teve solução: a barreira em frente à sua casa. “Todos os anos a Defesa Civil vem aqui na rua, avalia e diz que vai resolver o problema, mas nunca faz nada”, informa a moradora.

Para tentar impedir que a barreira avance contra a rua, os moradores colocaram sacos com areia na entrada da cratera, mas sem pavimentação e obras de drenagem o barranco só cresce a cada período chuvoso. “Há vários anos a gente convive com isso. Cada vez que chove, o barranco vai piorando e a gente fica com medo. Eu tenho duas pessoas com deficiência na minha casa. Nesta rua, moram várias crianças, e o nosso medo é que aconteça algum acidente. Graças a Deus nunca aconteceu, mas o perigo é constante”, comenta.

Ao lado da barreira, há uma residência onde mora uma menina de 8 anos. A mãe não quis falar com O Estado, mas confirmou que tem medo da casa ser prejudicada, caso haja um deslizamento, e que só não procura outra moradia porque não tem condições.

No mesmo bairro, a Rua das Pedreiras é outra onde os moradores convivem com o perigo de deslizamentos. A casa de Késsya Sousa Araújo tem um barranco aos fundos e em dias de chuva a preocupação é constante. “Já deslizou terra aqui. Não foi muito e não chegou a atingir minha casa, mas sempre que chove mais forte a barreira aumenta um pouco”, diz.

O São Raimundo não é a única região da cidade onde há áreas de risco. A Secretaria Municipal de Segurança com Cidadania (Semus) informa que atualmente há 60 áreas de risco em São Luís. O mapeamento foi feito pela Defesa Civil Municipal e mostra redução no total de áreas nestas condições. Antes, eram 66.

Locais

Os locais mapeados são aqueles mais suscetíveis a terem problemas por causa das chuvas que iniciaram­se agora e devem se intensificar nos próximos meses. Em anos anteriores, as fortes chuvas causaram sérios prejuízos para os moradores dessa região e, por essa razão, o drama das pessoas que vivem nesses locais novamente vem à tona no período chuvoso.

As áreas de risco de alagamento e deslizamento estão localizadas em bairros como Salina do Sacavém, Coroadinho, Vila Bacanga, Vila Isabel, Quinta dos Machado, Vila Embratel, Sá Viana, Itapera, Quebra­Pote, Sacavém, Geniparana, Residencial José Reinaldo Tavares, Vila Lobão, Recanto Canaã, Vila Funil, entre outros. São mais de 600 famílias que moram nessas regiões, segundo os dados da Defesa Civil.

O bairro Sá Viana, na área Itaqui­Bacanga, também contém pontos que estão em situação de risco, conforme o levantamento feito pela Defesa Civil. Algumas regiões da comunidade localizam­se em áreas baixas e, como consequência, elas são facilmente inundadas pela chuva. Há também residências situadas próximas a grandes barreiras que eventualmente podem desabar e soterrar as casas em uma forte chuva. A presença de construções irregulares é outro motivo de preocupação para a Defesa Civil.

Risco

Mas há gente que ignora o perigo de deslizamentos. Em 2014, parte do morro no Salina do Sacavém caiu sobre uma casa e provocou a morte de uma adolescente de 13 anos. Na área, há gente que parece ter esquecido a tragédia, pois outras casas estão sendo construídas bem perto de onde tudo aconteceu.

Quem ainda lembra da tragédia tenta entender porque outros moradores do bairro insistem em morar na área. “Já houve uma morte e o povo continua construindo casa ali. Não dá para entender. Todo mundo precisa morar, mas eu acho que nossa segurança e nossa vida têm de ser prioridade”, diz Josefa Gonçalves.

O Estado entrou em contato com a Prefeitura de São Luís para saber que trabalho tem sido feito nessas localidades. A Semusc informou apenas que vem trabalhando preventivamente junto com às comunidades localizadas nas áreas de risco, por meio de reuniões realizadas periodicamente, onde são passadas orientações na área de Civil, mas não detalhou que trabalho vem sendo realizado junto às comunidades.

O município de São Luís possui atualmente 15 Núcleos Comunitários de Defesa Civil e cada um deles conta com a participação de mais de 50 famílias. O trabalho é desenvolvido a partir de contato direto com a liderança comunitária, que ajuda na mobilização das famílias para receberem orientações na área de Defesa Civil.

 

 

 

 

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